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Linhas de Cuidado

Volume 2 - Manual de Neonatologia

Hiperglicemia Neonatal

tabela-78B

Definição:

Hiperglicemia no período neonatal é definida como glicemia de sangue total superior  a 125 mg/dl  (145 mg/dl de glicemia plasmática).

Quadro clínico

• É frequente a perda urinária de glicose, com diurese osmótica e risco de desidratação; há ainda aumento da osmolaridade plasmática, com maior risco de sangramento cerebral. Pode haver agravo nos episódios de apnéia.

Fatores de risco

A hiperglicemia pode estar associada à infusão de glicose e alguns fatores são relevantes:

Prematuridade: recém-nascidos pré-termo e muito pequenos, principalmente os menores de 1.000 g, apresentam risco 18 vezes maior de hiperglicemia, em comparação aos maiores que 2000 g. Isso se deve à imaturidade nos mecanismos reguladores, com secreção inadequada e resposta periférica alterada aos hormônios reguladores da glicemia, maior resistência periférica a insulina, maior liberação de catecolaminas e produção endógena contínua de glicose ainda que com aporte adequado.

Asfixia: na asfixia há estimulação alfa-adrenérgica e diminuição da resposta insulínica.

Dor ou estresse: nas situações de dor ou estresse, observa-se uma reação endócrina-metabólica com liberação de catecolaminas, cortisol, glucagon e diminuição da insulina, levando a uma estado de catabolismo importante, resultando em hiperglicemia.

Infecções graves: pode ocorrer tanto hipoglicemia como hiperglicemia; nesse último caso por liberação de citocinas ou endotoxinas, com diminuição da utilização periférica da glicose, ou por liberação de catecolaminas que antagonizam a ação da insulina, resultando em hiperglicemia.

Uso de drogas:  as metilxantinas, teofilina e cafeína, principalmente a primeira, por aumentar a concentração tecidual de AMP-cíclico, que induz a glicogenólise em tecido muscular e hepático, aumentam a possibilidade de ocorrência de hiperglicemia. Os corticosteroides aumentam a neoglicogênese e inibem a utilização periférica da glicose, levando ao acúmulo de glicogênio hepático, podendo levar a hiperglicemia.

Nutrição parenteral: a utilização de NP com infusões lipídicas pode alterar o metabolismo de carboidratos, através da oxidação lipídica, levando ao aumento dos ácidos graxos, e consequente diminuição da atividade insulínica em tecidos periféricos, redução da taxa de glicólise e aumento da gliconeogênese, predispondo a concentrações de glicose mais elevadas.

Situações mais raras como diabete mellitus neonatal e agenesia ou hipoplasia de pâncreas: a hiperglicemia independe da oferta de glicose. Diabete mellitus neonatal é ocorrência bastante rara e geralmente transitória; os recém nascidos desnutridos intra-útero são preferencialmente acometidos. Caracteriza-se por hiperinsulinismo, perda progressiva de peso, poliúria e glicosúria no período neonatal.

• Agenesia ou hipoplasia das células beta pancreáticas. Na maioria das vezes está acompanhada de outras malformações.

Prevenção

• Usualmente a hiperglicemia é autolimitada e não está associada a sequelas importantes. O uso criterioso de glicose, levando-se em consideração principalmente a idade gestacional e o peso dos recém-nascidos pode minimizar em muito sua ocorrência, assim como a monitorização frequente dos níveis glicêmicos permite sua detecção precoce e acompanhamento.

• A infusão concomitante de glicose e insulina tem sido usada para prematuros de extremo baixo peso no sentido de fornecer maior aporte calórico e ganho ponderal. Apesar de resultados satisfatórios ainda sua indicação rotineira tem sido vista com cautela. Recentemente, para fins de melhor suporte nutricional, o uso precoce e aumento rápido e gradual de lipídeos e proteínas parece reduzir o risco de hiperglicemia sem aumentar o risco de hipoglicemia.

Tratamento

• Baseia-se nos níveis glicêmicos, e uma vez que na maioria dos casos a hiperglicemia é autolimitada, desde que se garanta adequado controle  hidroeletrolítico é possível tolerar níveis um pouco acima no normal, por curtos períodos de tempo no sentido de se manter maior aporte calórico, deixando o uso da insulina para os casos que não respondem a redução da infusão de glicose ou diurese osmótica importante. Glicemia acima de 250mg/dl mantida por horas, pode levar a desidratação das células cerebrais, dilatação capilar e sangramento do Sistema Nervoso Central, principalmente em prematuros na primeira semana de vida.

• Para hiperglicemia prolongada recomenda-se início do tratamento com infusão endovenosa de insulina 0,05 - 0,1 UI/kg/hora, diluída em solução salina com 1% de albumina no sentido de se evitar a aderência da insulina ao frasco. É também recomendado que se lave o equipo com 3 a 5 ml da solução a ser infundida.

Sugestão:

• Glicemia < 150 mg/dl - acompanhar

• Glicemia 150-250 mg/dl - reduzir a infusão de glicose até 0,12 g/kg/hora  (2mg/kg/min)

• Glicemia > 250 mg/dl - administrar insulina; a insulina pode ser preparada colocando-se 10 UI em 100 ml de soro fisiológico para obter 0,1 UI de insulina/ml; para ter 0,1 UI/kg/hora deve-se administrar 1 ml/kg/hora 



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