Saúde em Ação Menu

Linhas de Cuidado

Volume 2 - Manual de Neonatologia

Distermias

As distermias (hipotermia e hipertermia) são de grande importância clínica para o neonatologista, visto que podem levar a sintomas (gemência, apnéia, taquicardia, taquipnéia, alterações de perfusão) que são quadros  similares a sepse e doença respiratória.

Define-se distermia como sendo temperatura cutânea menor que 36,5 °C (hipotermia) e maior que 37,5 °C (hipertermia). Os primeiros minutos de vida são de grande importância, e a manutenção da temperatura deve ser uma preocupação constante para quem recebe esses bebês.

Uma série de medidas adotadas ao nascimento e nos primeiros dias de vida, visa garantir ao recém-nascido um conforto térmico, ou seja, mantê-lo com temperatura corporal entre 36,5 e 37,5 °C.

Ambiente térmico neutro é a faixa de temperatura ambiental na qual o RN com temperatura corpórea normal tem uma taxa metabólica mínima e pode manter uma temperatura corporal constante, apenas por controle vasomotor, transpiração e postura. Abaixo dessa faixa, em que o limite inferior é chamado temperatura crítica, torna-se necessária uma resposta metabólica ao frio para repor a perda de calor. Acima dessa faixa, há um aumento da temperatura corpórea e da taxa metabólica.

A avaliação da temperatura central pode ser feita preferentemente de forma contínua (sensor na região abdominal) ou pode ser aferida com frequência por via axilar, usando termômetro digital. A temperatura periférica pode ser obtida nos membros, mais usualmente nos pés.

A — HIPOTERMIA

A Organização Mundial de Saúde classifica a hipotermia conforme a gravidade em:

leve: temperatura entre 36,0 e 36,4 °C

moderada: temperatura entre 32,0 e 35,9 °C

grave: temperatura menor que 32,0 °C

A hipotermia pode ocorrer devido à perda de calor para o ambiente que está fora das condições ideais ou durante procedimentos demorados que expõem o bebê ao frio. Ocorre também pela deficiência na termogênese, ou seja, na produção de calor pelo organismo, como por exemplo, em quadros de hipóxia, choque, hipoglicemia, infecção grave, lesão cerebral, hipotireoidismo, uso de benzodiazepínicos .

A importância de um controle térmico efetivo é inversamente proporcional ao tamanho do RN. O estresse térmico tem sido associado com o aumento da mortalidade e morbidade, principalmente no prematuro, por causa da aumentada perda de calor e imaturidade ou ausência dos mecanismos termorregulatórios. O baixo peso ao nascer, a grande superfície de pele em relação à massa corporal, a pobreza de tecido celular subcutâneo e a postura em extensão são alguns dos fatores que tornam o recém-nascido prematuro particularmente vulnerável ao frio.

A criança perde calor por quatro mecanismos:

a) Evaporação é a perda de água através da pele e a principal forma de perda de calor e depende da temperatura, umidade e velocidade do ar. A secagem imediata do bebê ao nascer, o banho dado apenas após 6 horas do nascimento, em água com temperatura em torno de 37 °C, são procedimentos que evitam a perda de calor por evaporação. O recém-nascido prematuro deverá ser recebido em campos aquecidos, a temperatura ambiente deve estar por volta de 26 °C, deve ser colocado em saco plástico imediatamente após o nascimento, devendo ser retirado somente quando estiver em incubadora aquecida.

b) Convecção é a perda de calor da pele do recém-nascido para o ar ao seu redor e depende da temperatura e velocidade do ar. Para minimizar esses efeitos não deve haver corrente de ar no ambiente onde se encontra o RN e se houver necessidade de reanimação, usar gases aquecidos.

c) Condução é a perda de calor para superfícies mais frias que estão em contato direto com o corpo e pode ser minimizada quando se usam campos secos e aquecidos durante a recepção. O contato pele a pele entre mãe e bebê, sob cobertor, é uma prática importante usada para minimizar a perda de calor ao nascimento.

d) Radiação é a perda de calor para objetos ou superfícies mais frias que não estão em contato com o corpo do bebê. O uso de incubadora com parede dupla e cúpula de acrílico pode minimizar esses efeitos, principalmente nos prematuros extremos.

A maior perda de calor de um recém-nascido ocorre nos primeiros 10-20 minutos de vida. Sem medidas de controle térmico, o bebê pode perder de 2 a 4°C de sua temperatura corporal.

No recém-nascido a termo e vigoroso essas medidas são suficientes, recomendando-se que sejam mantidos em contato pele a pele por no mínimo 1 hora ou mais, até que a temperatura corporal esteja maior que 36,5ºC. Os cuidados de rotina devem ser realizados após esse período e antes de serem encaminhados para alojamento conjunto.

CUIDADOS PARA PREVENÇÃO DE HIPOTERMIA EM RN DE MUITO BAIXO PESO

• Preferencialmente, a sala de parto deverá estar com temperatura de 25ºC e a sala de recepção 26ºC.

• Assim que a criança nascer, deve-se envolvê-la em campo aquecido, cobri-la e levá-la à sala de reanimação, onde será envolta por saco plástico e gorro.

• Manter o recém-nascido com saco plástico e gorro durante toda a manipulação e procedimentos. Fazer orifício no plástico, retirar membro inferior para carimbar e realizar a vacina e vitamina K.

• Pesar o bebê com o plástico e gorro (a balança já deve estar tarada com o gorro).

• Medir a criança com o membro inferior exposto pelo orifício do plástico.

• Retornar a criança para o berço aquecido com novos campos aquecidos

• Medir temperatura corporal e preparar a criança para transporte até a UTIN.

• Colocar o recém-nascido na incubadora de transporte com os campos aquecidos, gorro e plástico.

• Na UTI, colocar o neonato em incubadora aquecida a aproximadamente 37ºC, com lençóis e plástico bolha aquecidos.

• Medir a temperatura do bebê e colocar em sistema de monitorização

• Vestir a criança com meias e luvas.

• Em pequenos prematuros, o uso de protetores de pele com base em petrolato (Aquafor), também diminui a perda de água por evaporação, diminuindo a necessidade hídrica do RN.

• Enquanto a temperatura não estiver adequada, adiar o uso de Aquafor.

• Adotar cuidado com manipulação mínima.

• Se disponível, realizar os procedimentos iniciais (intubação, cateterismo) em berço aquecido com campos e roupas aquecidas.

• Se houver necessidade de oxigenioterapia, utilizar oxigênio aquecido e umidificado.

• Preferir incubadora de parede dupla ou a incubadora Vision para RN de extremo baixo peso.

tabela-pg-93

B — HIPERTERMIA E FEBRE

a) O recém-nascido pode apresentar temperatura corporal elevada por estar em um ambiente muito aquecido, por excesso de roupas, baixa ingestão hídrica, infecção ou alterações nos mecanismos centrais de controle térmico, por tocotraumatismos, malformações ou drogas.

O uso de fototerapia também pode ser um fator que eleva a temperatura corporal dos neonatos.

A avaliação clínica minuciosa é sempre necessária quando um neonato está hipertérmico.     

b) Clinicamente pode-se estar diante de um bebê hígido, enrubescido, com temperatura do tronco igual às extremidades, sudorético, irritado; deve-se então adequar a temperatura ambiente, retirar excesso de vestimenta, proceder a pesagem e avaliação da diurese, garantir ingestão hídrica adequada.

c) No neonato com sepse, a febre geralmente associa-se a outros sinais como vasoconstrição periférica, extremidades frias, distúrbios hemodinâmicos e outros sinais e sintomas associados à infecção. Neste caso o rastreamento laboratorial se faz necessário e também o tratamento clínico específico.

d) Em neonatos hígidos que persistem hipertérmicos apesar das medidas tomadas, a investigação laboratorial para infecção também deve ser realizada.

Terapêutica:

Medicações que podem ser usadas nos casos de hipertermia.

tabela-pg-94

HIPERTERMIA / FEBRE

tabela-pg-95



topo