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Linhas de Cuidado

Volume 2 - Manual de Neonatologia

Atenção humanizada ao Recém-Nascido

DEFINIÇÃO

O Método Canguru é um modelo de assistência perinatal voltado para o cuidado humanizado que reúne estratégias de intervenção bio-psico-social, fazendo parte do cuidado progressivo nas Unidades neonatais, conforme estabelecido na portaria 930/2012; que define as diretrizes e objetivos para a organização da atenção integral e humanizada ao recém-nascido grave ou potencialmente grave, É composto de 3 etapas, sendo que a primeira já se inicia na UTI neonatal, a segunda na fase de cuidados intermediários até a alta hospitalar e a terceira é o seguimento ambulatorial até que o recém nascido atinja o peso de 2.500 g.

O contato pele a pele, no Método Canguru, começa com o toque evoluindo até a posição canguru. Inicia-se de forma precoce e crescente, por livre escolha da família, pelo tempo que ambos entenderem ser prazeroso e suficiente. Esse Método permite uma maior participação dos pais e da família nos cuidados neonatais.

A posição canguru consiste em manter o recém-nascido de baixo peso, em contato pele a pele, na posição vertical, junto ao peito da mãe ou pai  ou de outros familiares. Deve ser realizada de maneira orientada, segura e acompanhada de suporte assistencial por uma equipe de saúde adequadamente treinada.

Vantagens

• Aumenta o vínculo mãe-filho

• Reduz o tempo de separação mãe-filho

• Melhora a qualidade do desenvolvimento neurocomportamental e psico-afetivo do RN de baixo peso.

• Estimula o aleitamento materno, permitindo sua maior frequência, precocidade e duração

• Permite um controle térmico adequado

• Favorece a estimulação sensorial adequada do RN

• Contribui para a redução do risco de infecção hospitalar

• Reduz o estresse e a dor do RN de baixo peso

• Propicia um melhor relacionamento da família com a equipe de saúde

• Possibilita maior competência e confiança dos pais no manuseio do seu filho de baixo peso, inclusive após a alta hospitalar

• Contribui para a otimização dos leitos de Unidades de Terapia Intensiva e de Cuidados Intermediários devido à maior rotatividade de leitos

População a ser atendida

• Gestantes de risco para o nascimento de crianças de baixo peso

• Recém-nascidos de baixo peso

• Mãe, pai e família do recém-nascido de baixo peso

Normas Gerais:

1. A adoção do Método Canguru visa fundamentalmente uma mudança de atitude no cuidado do recém-nascido de baixo peso, com necessidade de hospitalização.

2. O método descrito não é um substitutivo das unidades de terapia intensiva neonatal, nem da utilização de incubadoras, já que estas situações têm as suas indicações bem estabelecidas.

3. O Método não objetiva economizar recursos humanos e recursos técnicos, mas fundamentalmente aprimorar a atenção perinatal.

4. O início da atenção adequada ao RN antecede o período do nascimento. Durante o prénatal, é possível identificar mulheres com maior risco de recém-nascidos de baixo peso; para elas devem ser oferecidas informações sobre cuidados médicos específicos e humanizados.

5. Nas situações em que há risco de nascimento de crianças com baixo peso, Recomenda-se encaminhar a gestante para os serviços de referência, uma vez que essa é a maneira mais segura de atenção.

6. Na 2ª etapa (alojamento conjunto canguru) não se estipula a obrigatoriedade de tempo em posição canguru. Essa situação deve ser entendida como um fato que ocorre com base na segurança do manuseio da criança, no prazer e na satisfação da criança e da mãe.

7. Deverá ser também estimulada a participação do pai e de outros familiares na prática da posição canguru.

8. A presença de berço no alojamento de mãe e filho, com possibilidade de elevação da cabeceira, permitirá que a criança ali permaneça na hora do exame clínico, durante o asseio da criança e da mãe e nos momentos em que a mãe e a equipe de saúde acharem necessários.

Atribuições da equipe de saúde:

• Orientar a mãe e a família em todas as etapas do método

• Oferecer suporte emocional e estimular os pais em todos os momentos

• Encorajar o aleitamento materno

• Desenvolver ações educativas abordando conceitos de higiene, controle de saúde e nutrição

• Desenvolver atividades recreativas para as mães durante o período de permanência hospitalar

• Participar de treinamento em serviço como condição básica para garantir a qualidade da atenção

• Orientar a família na hora da alta hospitalar, criando condições de comunicação com a equipe, e garantir todas as possibilidades já enumeradas de atendimento continuado.

Aplicação do método

O método é desenvolvido em três etapas:

1ª etapa

Período que se inicia no pré-natal da gestação de alto risco, seguido da internação do RN na Unidade Neonatal. Nessa etapa, os procedimentos deverão seguir os seguintes cuidados especiais:

— Acolher os pais e a família na Unidade Neonatal.

— Esclarecer sobre as condições de saúde do RN e sobre os cuidados que serão dispensados, sobre a equipe, as rotinas e o funcionamento da Unidade Neonatal.

— Estimular o livre e precoce acesso dos pais à Unidade Neonatal, sem restrições de horário.

— Propiciar sempre que possível o contato com o RN.

— Garantir que a primeira visita dos pais seja acompanhada pela equipe de profissionais.

— Oferecer suporte para a amamentação.

— Estimular a participação do pai em todas as atividades desenvolvidas na Unidade

— Assegurar a atuação dos pais e da família como importantes moduladores para o bem estar do RN.

— Comunicar aos pais as peculiaridades do seu RN e demonstrar continuamente as suas competências.

— Garantir à puérpera a permanência na unidade hospitalar pelo menos nos primeiros cinco dias, oferecendo o suporte assistencial necessário.

— Diminuir os níveis de estímulos ambientais adversos da unidade neonatal, tais como odores, luzes e ruídos.

— Adequar o cuidado de acordo com as necessidades individuais comunicadas pelo bebê.

— Garantir ao RN medidas de proteção contra o estresse e a dor.

— Utilizar o posicionamento adequado do RN, propiciando maior conforto, organização e melhor padrão de sono, favorecendo assim o desenvolvimento.

— Assegurar a permanência da puérpera, durante a primeira etapa:

— Auxílio transporte, para a vinda diária à unidade (provido por Estados e/ou Municípios).

— Refeições durante a permanência na unidade (provido por Estados e/ou Municípios).

— Assento (Cadeira) adequado para a permanência ao lado de seu RN e espaço que permita o seu descanso.

— Atividades complementares que contribuam para melhor ambientação, desenvolvidas pela equipe e voluntários.

2ª etapa

Na segunda etapa o RN permanece de maneira contínua com sua mãe e a posição canguru será realizada pelo maior tempo possível. Esse período funcionará como um “estágio” pré-alta hospitalar.

São critérios de elegibilidade para a permanência nessa etapa:

1. Do RN

• Estabilidade clínica

• Nutrição enteral plena (peito, sonda gástrica ou copo)

• Peso mínimo de 1.250g

2. Da mãe

• Desejo de participar, disponibilidade de tempo e de rede social de apoio

• Consenso entre mãe, familiares e profissionais da saúde

• Capacidade de reconhecer os sinais de estresse e as situações de risco do recém-nascido.

• Conhecimento e habilidade para manejar o bebê em posição canguru

— Permitir o afastamento temporário da mãe de acordo com suas necessidades.

— Acompanhar a evolução clínica e o ganho de peso diário.

—Cada serviço deverá utilizar rotinas nutricionais de acordo com as evidências científicas atuais.

— A utilização de medicações orais, intramusculares ou endovenosas intermitentes não contra-indicam a permanência nessa etapa.

São critérios para a alta hospitalar, com transferência para a 3ª etapa:

• Mãe segura, psicologicamente motivada, bem orientada e familiares conscientes quanto ao cuidado domiciliar da criança

• Compromisso materno e familiar para a realização da posição canguru pelo maior tempo possível

• Peso mínimo de 1.600 g

• Ganho de peso adequado nos três dias que antecedem a alta

• Amamentação exclusiva ou, em situações especiais, mãe e família habilitados a realizar a complementação da amamentação

• Assegurar acompanhamento ambulatorial até o peso de 2.500 g

• A primeira consulta deverá ser realizada até 48 horas da alta e as demais no mínimo uma vez por semana

• Garantir atendimento na unidade hospitalar de origem, a qualquer momento, até a alta da terceira etapa

3ª etapa

Esta etapa se caracteriza pelo acompanhamento da criança e da família no ambulatório e/ou no domicílio até atingir o peso de 2.500g, dando continuidade à abordagem biopsicossocial.

Ambulatório de acompanhamento

São atribuições do ambulatório de acompanhamento:

•  Realizar exame físico completo da criança tomando como referências básicas o grau de desenvolvimento, o ganho de peso, o comprimento e o perímetro cefálico, levando-se em conta a idade gestacional corrigida

•  Avaliar o equilíbrio psicoafetivo entre a criança e a família e oferecer o devido suporte

•  Apoiar a manutenção de rede social de apoio

•  Corrigir as situações de risco, como ganho inadequado de peso, sinais de refluxo, infecção e apnéias

•  Orientar e acompanhar tratamentos especializados

•  Orientar esquema adequado de imunizações

O seguimento ambulatorial deve apresentar as seguintes características:

•  Ser realizado por médico e/ou enfermeiro que, de preferência, tenham acompanhado o bebê e a família nas etapas anteriores

•  O atendimento, quando necessário, deverá envolver outros membros da equipe interdisciplinar

•  Ter agenda aberta, permitindo retorno não agendado, sempre que a criança necessitar

•  O tempo de permanência em posição canguru será determinado individualmente por cada díade

•  Após a criança alcançar o peso de 2.500 g, o seguimento ambulatorial deverá seguir as normas de crescimento e desenvolvimento do Ministério da Saúde

Recursos para a implantação:

1. Recursos Humanos

Recomenda-se que toda a equipe de saúde responsável pelo atendimento da criança, dos pais e da família, esteja adequadamente capacitada para o pleno exercício do Método.

A equipe multiprofissional deve ser constituída por:

•  Médicos

•  Pediatras e/ou neonatologistas (cobertura de 24 horas)

•  Obstetras (cobertura de 24 horas)

•  Oftalmologista

•  Enfermeiros (cobertura de 24 horas)

•  Psicólogos

•  Fisioterapeutas

•  Terapeutas ocupacionais

•  Assistentes sociais

•  Fonoaudiólogos

•  Nutricionistas

• Técnicos e auxiliares de enfermagem (na 2ª etapa, uma auxiliar para cada 6 binômios com cobertura 24 horas).

2. Recursos Físicos

Os setores de terapia intensiva neonatal e de cuidados intermediários deverão obedecer às normas já padronizadas para essas áreas e permitir o acesso dos pais com possibilidade de desenvolvimento do contato tátil descrito nas etapas 1 e 2 desta norma. É importante que essas áreas permitam a colocação de assentos removíveis (cadeiras – bancos) para, inicialmente, facilitar a prática da posição canguru.

Os quartos ou enfermarias para a 2ª etapa deverão obedecer à Norma já estabelecida para alojamento conjunto, com aproximadamente 5 m2 para cada conjunto leito materno/berço do recém-nascido.

Recomenda-se que a localização desses quartos proporcione facilidade de acesso ao setor de cuidados especiais.

Objetivando melhor funcionamento, o número de binômios por enfermaria deverá ser de, no máximo, seis.

O posto de enfermagem deverá localizar-se próximo a essas enfermarias.

Cada enfermaria deverá possuir um banheiro (com dispositivo sanitário, chuveiro e lavatório) e um recipiente com tampa para recolhimento de roupa usada.

3. Recursos Materiais

Na 2ª etapa, na área destinada a cada binômio, serão localizados: cama, berço (de utilização eventual, mas que permita aquecimento e posicionamento da criança com a cabeceira elevada), aspirador a vácuo, central ou portátil, cadeira e material de asseio.

Balança para pesar a criança, régua antropométrica, fita métrica de plástico e termômetro.

Carro com equipamento adequado para reanimação cardiorrespiratória, que deverá estar localizado nos postos de enfermagem.

Avaliação do método

Sugere-se que, periodicamente, sejam realizadas as seguintes avaliações:

• Morbidade e mortalidade neonatal

• Taxas de reinternação

• Crescimento e desenvolvimento

• Grau de satisfação e segurança materna e familiar

• Prevalência do aleitamento materno

• Desempenho e satisfação da equipe de saúde

• Conhecimentos maternos adquiridos quanto aos cuidados com a criança

• Tempo de permanência intra-hospitalar

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A adoção do Método Canguru visa fundamentalmente a uma mudança de atitude por parte da equipe de saúde e da família no manuseio do recém-nascido de baixo peso com necessidade de hospitalização. Este método não substitui as unidades de terapia intensiva neonatal, nem as incubadoras, quando necessárias, visto que o uso desses recursos tem as suas indicações bem estabelecidas. Não deve ser considerado que o método objetive apenas economizar recursos humanos e recursos técnicos, mas fundamentalmente aprimorar a atenção perinatal. O início da atenção adequada ao RN antecede o período do nascimento. Durante o pré-natal, é possível identificar mulheres com maior risco de recém-nascidos de baixo peso, para as quais devem ser oferecidas informações sobre cuidados médicos específicos e humanizados. Nas situações em que há risco de nascimento de crianças com baixo peso, é recomendável encaminhar a gestante para os serviços de referência.

Na segunda etapa, não se estipula a obrigatoriedade de tempo em posição canguru. Essa situação deve ser entendida como um fato que ocorre baseado na segurança do manuseio da criança, no prazer e na satisfação da criança e da mãe.

Na terceira etapa, para maior segurança, recomenda-se a posição canguru em tempo integral. Deverá ser estimulada também a participação do pai e de outros familiares na colocação da criança em posição canguru. A presença de berço no alojamento da mãe e filho, com possibilidade de elevação da cabeceira, permitirá que a criança ali permaneça na hora do exame clínico, durante o seu asseio e o da mãe e nos momentos em que a mãe e a equipe de saúde acharem necessários.

São atribuições da equipe de saúde:

• Orientar a mãe e a família em todas as etapas do método.

• Oferecer suporte emocional e estimular os pais em todos os momentos.

• Encorajar o aleitamento materno.

• Desenvolver ações educativas abordando conceitos de higiene, controle de saúde e nutrição.

• Desenvolver atividades recreativas para as mães durante o período de permanência hospitalar.

• Participar de treinamento em serviço como condição básica para garantir a qualidade da atenção.

• Orientar a família na hora da alta hospitalar, criando condições de comunicação com a equipe, e garantir todas as possibilidades já enumeradas de atendimento continuado.



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